Aos 17 anos, Maradona chorou debaixo de uma árvore ao ficar de fora da convocação de César Luis Menotti para a Copa do Mundo da FIFA de 1978. Ele já havia dado lampejos de seu talento extraordinário na Espanha 1982, mas a marcação feroz de Claudio Gentile e a expulsão contra o Brasil marcaram a queda da Argentina na segunda fase de grupos. No México 1986, Maradona estava no auge do seu talento e, em quatro jogos, fez um gol e deu quatro assistências, levando a Argentina às quartas de final.
Havia uma hostilidade significativa entre os dois países. O técnico da Inglaterra na Copa do Mundo da FIFA 1966 Alf Ramsey, chamou os argentinos de “animais” depois de um encontro tumultuado entre as duas seleções naquele torneio, provocando indignação entre os sul-americanos.
Para piorar, a Guerra das Malvinas ainda estava fresca na memória. Maradona não fez questão de disfarçar seu desprezo pelos ingleses, contra quem havia perdido um amistoso em 1980. As ideias táticas de Carlos Bilardo eram cristalinas: a bola tinha de chegar ao camisa 10. As de Bobby Robson também. O treinador inglês, em uma declaração nada comum, disse que “a Argentina não teria nenhuma chance de ganhar a Copa do Mundo sem Maradona”. Tudo girava em torno de anular um único homem.
O jogo
Desde o primeiro minuto, Maradona passou a aterrorizar a Inglaterra com sua genialidade fora de série. Ele deixou ingleses pelo chão no Azteca, criou oportunidades e apanhou o tempo todo. Sofreu seis faltas só no primeiro tempo, uma delas que rendeu cartão a Terry Fenwick. Na volta para o segundo tempo, o camisa 10 retomou o show e, em apenas quatro minutos, escreveu dois capítulos eternos da Copa do Mundo da FIFA: um com a “mão de Deus” e outro com os pés de alguém que parecia não ser humano.
Do nada, a Inglaterra entrou no jogo e fez o seu com Lineker, de cabeça. Logo na saída de bola, Maradona deixou três marcadores atordoados com um giro de 360 graus, resistiu à pressão de mais dois e tocou para Carlos Tapia, que carimbou a trave. Pouco importava. Maradona destroçou a Inglaterra em uma exibição que muita gente aponta como a maior exibição individual já vista em uma Copa do Mundo da FIFA.
Com a palavra
“Teve um pouco da cabeça de Maradona e um pouco da mão de Deus.” Diego Maradona, após o jogo “Eu fiquei esperando meus companheiros me abraçarem, mas ninguém veio! Eu gritei: ‘Venham me abraçar, senão o árbitro não vai validar’. “Foi uma sensação muito boa fazer aquele gol, uma espécie de vingança simbólica contra os ingleses.” Diego Maradona
“Maradona agora com a bola. Dois fazendo a marcação. Maradona passa o pé sobre a bola. O gênio do futebol mundial parte pela direita. Passa por um terceiro, pode tocar para Burruchaga. Sempre Maradona! Gênio! Gênio! Gênio! Vai, vai, vai!… Goooooool! Goooooool! Eu quero chorar! Santo Deus! Viva o futebol! Golaço! Diegol! Maradona! É para chorar, me desculpem! Uma arrancada inesquecível de Maradona. A maior jogada de todos os tempos. ‘Pipa cósmica’ [um dos apelidos de Maradona], de que planeta você veio?” Victor Hugo Morales, narrando o “Gol do Século para a TV argentina
“Eu simplesmente fiquei hipnotizado de vê-lo jogar. Fascinado. Nunca vi ninguém fazer o que Maradona fez. Ele assustava absolutamente todo mundo! Não dava para jogar contra ele. Não dava para pará-lo. Ele conseguia fazer tudo. Estava muito acima de qualquer outro no mundo.” John Barnes
“No começo, fui junto com ele. Então percebi que eu era só mais um espectador. O gol foi dele, não teve nada a ver com a equipe. Foi a aventura pessoal de Diego, uma [aventura] que foi totalmente espetacular.” Jorge Valdano, sobre o “Gol do Século” “Quando o Diego marcou aquele segundo gol contra nós, tive vontade de aplaudir. Era impossível marcar um gol tão bonito. Ele é o maior jogador de todos os tempos, de longe. Um fenômeno genuíno.” Gary Lineker
