Sem saber, aquela campanha que terminou com a triste derrota para a Alemanha no Estádio do Maracanã foi o primeiro passo rumo à glória. A Argentina carregava um longo jejum sem conseguir superar as quartas de final da Copa do Mundo: a última vez havia sido em 1990, quando aquela versão da campeã mundial comandada por Carlos Salvador Bilardo havia chegado à decisão contra a Alemanha Ocidental.
Naqueles 24 anos, a Argentina havia acumulado decepção após decepção, apesar de ter tentado diferentes fórmulas. A caminho do Brasil 2014, a Associação do Futebol Argentino encarou o torneio com Alejandro Sabella como treinador e Lionel Messi não apenas como um dos melhores jogadores do mundo: o técnico havia escolhido o craque como capitão da seleção nacional.
Com a esperança de construir uma façanha no território de seu maior rival, a Argentina venceu os três jogos da fase inicial contra Bósnia, Nigéria e Irã para terminar como líder do Grupo F, com um Messi brilhante, que havia marcado nos três confrontos. A Suíça foi a segunda colocada do Grupo E, atrás da França: derrotou o Equador na estreia, perdeu para os Bleus por 5 a 2 na segunda rodada e goleou Honduras para confirmar sua classificação.
O primeiro objetivo da Argentina era cruzar o Rubicão, como Sabella havia definido a meta de voltar a superar as quartas de final. Mas, antes de encarar esse desafio, a Albiceleste precisava superar um adversário em ascensão, com uma geração promissora que se tornaria uma pedra no sapato de grandes equipes do cenário internacional. E os suíços levariam ao limite o então bicampeão mundial.
Durante quase duas horas, o jogo pareceu se desenrolar sobre uma corda bamba. A Argentina buscava, insistia, esbarrava na resistência suíça e voltava a tentar. Os europeus resistiam, corriam e marcavam forte no meio-campo até encontrar seu momento. Na Arena Corinthians, em São Paulo, pelas oitavas de final da Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014™, a equipe de Sabella se deparou com um daqueles testes que definem os candidatos ao título.
A lesão de Sergio Agüero, artilheiro do Manchester City e um dos integrantes do quarteto fantástico ao lado de Messi, Gonzalo Higuaín e Ángel Di María, obrigou a Argentina a modificar seu plano. Ezequiel Lavezzi entrou no time titular e a Argentina se ajustou em um 4-4-1-1, com o próprio Lavezzi e Ángel Di María abertos pelos lados, enquanto Messi se movimentava atrás do centroavante Higuaín. A intenção era encontrar amplitude com os pontas e dar ao capitão um ponto de partida mais livre para desenvolver sua intuição. Mas Ottmar Hitzfeld, no último jogo de sua extraordinária carreira como treinador, havia preparado uma marcação quase permanente sobre o camisa 10.
A Suíça se entregou ao máximo no meio-campo. O capitão Gökhan Inler e Valon Behrami formaram uma dupla de contenção forte, inteligente e física, encarregada de bloquear os caminhos por dentro. Sempre que Messi recebia a bola e tentava girar, encontrava uma muralha vermelha à sua frente.
O primeiro tempo avançou com um ritmo travado, quase claustrofóbico. A Argentina tinha a posse de bola, mas não encontrava profundidade. Javier Mascherano e Fernando Gago mantinham o equilíbrio da equipe, embora sem muita capacidade para quebrar linhas. Lavezzi e Di María se alternavam pelos lados, buscavam espaços, mas o time não conseguia transformar o domínio da bola em perigo constante.
A primeira grande oportunidade foi da Suíça. Aos 28 minutos, Xherdan Shaqiri, o jogador mais desequilibrante da equipe europeia, acelerou pela lateral, chegou até a linha de fundo e cruzou para o jovem Granit Xhaka em posição de marcar. A finalização saiu rasteira, mas Sergio Romero respondeu com uma defesa providencial, dias antes de se transformar definitivamente em herói.
Shaqiri foi, durante boa parte da partida, a grande ameaça suíça. Com sua força física e sua canhota elétrica, o meio-campista do Bayern de Munique encontrou espaços para girar, partir para cima e fazer sua equipe avançar. A Suíça não se limitava a esperar: pressionava, incomodava e escolhia bem os momentos de atacar. Hitzfeld havia construído um time disciplinado, mas também com ambição para causar danos quando a Argentina se desorganizasse.
Com o passar dos minutos, porém, a Argentina começou a desequilibrar o jogo e passou a pressionar cada vez mais perto da área de Diego Benaglio. Higuaín teve algumas aparições, Lavezzi tentou romper pelo lado de fora e Di María, então destaque do Real Madrid, insistia com intensidade graças à sua vontade inesgotável, em uma atuação marcada pelo puro espírito de luta.
Benaglio começou a crescer como uma figura decisiva. Cada avanço argentino encontrava uma resposta do goleiro suíço. Messi conseguiu escapar em jogadas isoladas, como se precisasse criar suas próprias façanhas. Aos 78 minutos, recebeu em posição central, acelerou, deixou adversários para trás e finalizou rasteiro, mas Benaglio conseguiu defender. Era um aviso: mesmo em uma tarde de marcação intensa, Messi era capaz de escapar da jaula.
A partida foi para a prorrogação com aquela sensação incômoda de que tudo poderia ser decidido por uma pequena brecha. A Argentina continuava atacando, mas o cansaço começava a pesar. A Suíça, firme e orgulhosa, resistia com sua convicção. Aos 108 minutos, Benaglio voltou a se esticar de maneira espetacular para impedir um chute de Di María que buscava o ângulo como um míssil teleguiado. A Argentina começava a acumular frustrações e revivia os fantasmas de suas recentes decepções.
Messi reconheceria depois: “Como todos, eu estava muito nervoso porque não conseguíamos marcar. Sabíamos que, se cometêssemos um único erro, iríamos para casa. Não queríamos ir para os pênaltis e queríamos resolver”. A Argentina sofria, mas a Suíça também. A Copa do Mundo voltava a mostrar que não existiam partidas fáceis. “É preciso vencer nos menores detalhes”, diria o capitão.
E o detalhe chegou quando a partida parecia caminhar para os pênaltis. Aos 12 minutos do segundo tempo da prorrogação, depois de quase duas horas de jogo, Rodrigo Palacio recuperou a bola no meio-campo e tocou para Messi no campo suíço. A Suíça havia ficado desorganizada, e Messi encontrou um pequeno corredor à sua frente: o capitão conduziu com sua cadência curta e inconfundível, avançou entre um bosque de pernas, atraiu a marcação e esperou até o momento exato. Em vez de finalizar, encontrou Di María entrando livre pela direita e escolheu o passe.
“Houve de tudo naquela jogada. Pensei em arriscar, mas o Fideo apareceu e decidi tocar para ele”, explicaria Messi. Di María, o jogador que havia insistido durante toda a tarde, esbarrando na inexpugnável defesa suíça, cruzou a finalização de canhota diante de Benaglio. A bola entrou rente à trave e a Argentina finalmente respirou.
A Argentina saboreava a vitória, mas ainda faltava uma última cena de suspense. Aos 121 minutos, Blerim Dzemaili ganhou pelo alto dentro da área argentina e a bola acertou a trave defendida por Romero. No rebote, bateu na perna do jogador e saiu pela linha de fundo, raspando novamente o poste. Em questão de segundos, a Argentina passou da euforia ao silêncio absoluto e do silêncio ao alívio.
Hitzfeld, que encerrava ali sua carreira como treinador, saiu com orgulho. “A equipe mostrou uma atuação apaixonada, taticamente muito madura”, afirmou. Também reconheceu a verdade que havia definido aquela tarde: “Sabemos que Messi, em um segundo, pode decidir uma partida”.
A Argentina havia sobrevivido ao desconforto em um desafio daqueles que forjam caráter. Em uma Copa do Mundo na qual várias potências já haviam se despedido, a seleção de Sabella entendeu que o caminho era percorrido com passos curtos e firmes. Em São Paulo, deu um passo decisivo: Messi atraiu os olhares do mundo, Di María apareceu no espaço certo e um cruzamento rasteiro manteve vivo o sonho.
Embora o caminho terminasse com a derrota para a Alemanha, aquela campanha permitiu ao país romper a barreira das quartas de final. Em retrospectiva, no Brasil começou a ser construída a consagração no Catar, que teve Messi como estrela e Di María como um dos heróis da conquista da terceira estrela.
Já com o “Fideo” aposentado da seleção e um Messi ainda imparável aos 39 anos, que se mantém como artilheiro da Copa do Mundo de 2026 com oito gols em cinco partidas, a Argentina busca o bicampeonato. Depois de superar os obstáculos impostos por Cabo Verde e Egito nas duas primeiras fases eliminatórias, agora enfrentará uma Suíça que se transformou definitivamente em uma fronteira futebolística para os grandes candidatos.
Após eliminar Argélia e Colômbia nos pênaltis, a equipe de Murat Yakin tentará se vingar daquela derrota, com dois nomes próprios que continuam presentes: Ricardo Rodríguez segue sendo uma certeza na lateral esquerda e Granit Xhaka, aos 33 anos, é o coração de seu país.
