A noite deixou um sentimento difícil de explicar no vestiário equatoriano. Não foi uma derrota contra Curaçau, mas o empate por 0 a 0 teve gosto de derrota. Foi uma oportunidade perdida, uma partida que escapou antes mesmo que pudessem entender o que havia acontecido. La Tri atacou, pressionou, persistiu, mudou de tática, buscou pelo meio, pelas laterais, com cruzamentos, com chutes, com variações e com desespero. Mas esbarrou repetidamente em Eloy Room, o goleiro que fez uma atuação histórica com sua resistência heroica, frustrando toda uma nação.
O Equador se encontra naquela posição desconfortável em que o desenrolar do jogo e o resultado final parecem contar histórias diferentes. A equipe criou chances suficientes para vencer, mas não conseguiu, colocando em risco sua participação na Copa do Mundo de 2026. Dominou a posse de bola, mas não conseguiu balançar as redes, um tema recorrente nos últimos anos.
E agora, após duas partidas em que a falta de finalização foi evidente, ainda resta uma última esperança: o jogo contra a Alemanha, teoricamente a equipe mais forte do grupo, surge como a última chance de superar esse revés. Porque a noite é sempre mais escura antes do amanhecer. “Temos mais uma chance, mantenham a cabeça erguida”, disse Sebastián Beccacece aos jogadores, reunidos em um círculo no gramado de Kansas City.
Hernán Galíndez explicou aos microfones do FIFA.com com a honestidade de alguém que ainda tentava assimilar o que havia acontecido. Como goleiro, ele entendia melhor do que ninguém a magnitude da atuação de Room. “Ele teve uma noite dos sonhos em uma Copa do Mundo. Fazer uma defesa daquelas foi realmente impressionante”, disse o goleiro equatoriano, que também fez algumas defesas cruciais para evitar que o Equador, desesperado, perdesse.
A frase resumia o sentimento nos bastidores: havia frustração, mas também reconhecimento por uma equipe que nunca desistiu. Porque o Equador não falhou por falta de vontade ou criatividade: às vezes, a vida e o futebol são feitos de milagres do adversário. “Essa é a estranha sensação que tenho agora, me perguntando o que posso criticar nos meus companheiros, quando eles criam chances a todo momento. Eles se entregaram de corpo e alma. Mudamos a tática, mudamos os jogadores, mudamos nosso estilo de ataque. E criamos e criamos, mas a bola simplesmente não entrava”, acrescentou Galíndez.
A cena se repetiu à exaustão: o Equador atacando e Curaçau resistindo com uma atuação emocionante. O goleiro equatoriano refletiu sobre o sofrimento da equipe: durante a partida, ele olhava fixamente para o placar eletrônico em busca de uma explicação que nunca encontrou: “Acho que vi umas 28 chances ou algo assim. Então, o que se pode fazer numa situação dessas?”
A pergunta persistia. O que fazer quando uma equipe cria tantas chances e não consegue convertê-las? Sebastián Beccacece assumiu a responsabilidade, mas também tentou separar a análise dos impulsos emocionais. “Se eu ignorar o resultado, seria imprudente. Se eu ignorar o desenrolar do jogo, seria injusto com meus jogadores”, explicou. O Equador se vê navegando por essa tensão: não pode negar que conquistou apenas um ponto em duas partidas, mas também não pode ignorar que, em ambos os jogos, apresentou argumentos sólidos para merecer mais.
O problema, porém, não é novo. O Equador chegou à Copa do Mundo como uma das equipes mais sólidas defensivamente, mas também com dificuldades para traduzir seu jogo ofensivo aprimorado em gols. Em Kansas City, essa contradição foi exposta mais uma vez. Beccacece não negou. “É claro que é um problema sério. Não nego”, reconheceu. Mas insistiu no caminho a seguir: “Vamos trabalhar para nos fortalecer, sem duvidar, acreditando cada vez mais no que estamos fazendo, mesmo sem obter os resultados.”
Além da eficácia, o principal desafio será mental, um aspecto que a comissão técnica equatoriana já teve que trabalhar após a derrota inicial contra a Costa do Marfim. Jordy Alcívar, ainda com a frustração no semblante, falou sobre uma conversa que teve com o treinador no meio de campo e a necessidade de clarear a mente. “Essas coisas acontecem. Sabemos que há jogos em que o placar simplesmente não abre”, disse ele. E imediatamente se apegou à ideia que sustenta o Equador antes da partida decisiva: “Acreditamos em outra chance, como o treinador acabou de dizer. E ela virá no próximo jogo contra a Alemanha.”
Essa sobrevida não será fácil. A Alemanha surge como uma potência, uma rival histórica, uma equipe que também sabe sofrer e vencer partidas por margens mínimas. A Die Mannschaft já está classificada para a próxima fase com uma rodada de antecedência. Apenas uma vitória na partida da próxima quinta-feira será suficiente para o Equador: não há espaço para lamentações.
Galíndez foi direto: “A realidade é que precisamos tentar dormir esta noite para podermos vencer a Alemanha daqui a alguns dias. Não vejo outra solução.” Não houve heroísmo forçado nem discursos ensaiados. Apenas uma receita básica para sobreviver à frustração: descansar, aceitar o golpe e voltar a competir.
Beccacece também escolheu esse caminho. Falou de desconforto, de dor, de um sonho que agora parece desvanecido, mas pediu a todos que não abandonassem a equipe. “Tenho a tranquilidade de ver uma equipe que se entrega por completo. Isso ainda não acabou, então temos uma janela de oportunidade. Vamos em busca desse jogo”, afirmou.
A janela é estreita, mas existe. E em uma Copa do Mundo de extrema paridade, o Equador pode encontrar na Alemanha a chance de se recuperar, classificar-se para a próxima fase e cruzar um limiar simbólico que pode ser a base de uma campanha histórica. Porque para se classificar para a fase eliminatória, eles precisam realizar seu próprio feito: duas décadas atrás, perderam por 3 a 0 para os alemães.
O desafio para o Equador, como a equipe sabe, não será principalmente dentro de campo. Seus pontos fortes e fracos ficaram bem evidentes nos 180 minutos contra a Costa do Marfim e Curaçau. Com a sólida base futebolística que levou a uma sequência invicta de 19 jogos, a adaptação terá que ser emocional. No fim das contas, trata-se de se reerguer após a decepção.
Beccacece resumiu tudo com uma frase que serve tanto como diagnóstico quanto como lema: “Quando você perde, precisa se levantar no dia seguinte com o mesmo espírito de quem venceu. Acho que esse é o grande desafio. Temos capacidade para isso, temos um ótimo time, temos uma ótima ideia, e acho que o que falta é a capacidade de executá-la. Então, temos 100 minutos pela frente e vamos tentar de novo.”


