BAHIA EM REVISTA

A origem escocesa do pai do futebol brasileiro

Brasil e Escócia entram em campo nesta quarta-feira, dia 24 de junho, pela terceira rodada da fase de grupos da Copa do Mundo da FIFA 2026™. Será o quinto duelo entre os dois países no torneio, com direito a duelos marcantes, como a vitória da Seleção por 4 a 1 em 1982 com direito a gol de falta de Zico. São nações com poucas similaridades, seja em clima, idioma, gastronomia e até preferência por diferentes bebidas. Entretanto, os dois países têm um parentesco fundamental que está ligado ao nascimento do futebol no Brasil.

A história é famosa. Charles Miller voltou ao Brasil após um período na Inglaterra e trouxe consigo nas malas um par de chuteiras, duas bolas de capotão – com uma bomba de ar para enchê-las – e um livro de regras do esporte que crescia em popularidade no Reino Unido. O que pouco se fala, entretanto, é que o paulista nascido no bairro do Brás tinha sangue escocês por parte de pai. John Miller nasceu em 13 de junho de 1844 na cidade de Fairlie, ao sul da entrada do estuário de Firth of Clyde, na costa ocidental da Escócia, próximo a Glasgow, e por lá cresceu com a família.

“Quando pequenos, os Miller costumavam sentar-se nos morros da costa litorânea, com suas praias de pedregulhos e águas geladas, em Largs e Fairlie, para acompanhar a entrada dos navios no estuário em direção às prósperas cidades industriais de Greenock, Glasgow e Paisley”, conta o escritor e historiador John Mills na biografia Charles Miller — O pai do Futebol Brasileiro.

John veio para o Brasil na década de 1860 para trabalhar na São Paulo Railway, ferrovia que ligava Santos a Jundiaí, com o irmão Andrew, dois anos mais velho, atraídos pela possibilidade de ganhos maiores do que receberiam na terra natal.

Charles nasceria em 24 de novembro de 1874, na chácara dos avós maternos onde hoje é o bairro do Brás, na capital paulista, fruto do casamento do pai com Carlota Alexandrina Fox, que era filha de ingleses. Criado em um ambiente de forte influência britânica, recebeu alfabetização em inglês em casa. Aos cinco anos, foi retratado pelo artista austríaco Ferdinand Piereck a pedido do pai em uma pintura que apresenta o pioneiro do futebol brasileiro trajando um kilt, a tradicional saia escocesa, com o tartã da família.

“Ele falava com respeito da Escócia. Tinha muito orgulho da origem britânica, de ser inglês e escocês”, lembra Maria Ignez Rudge Miller, neta de Charles Miller e que morou na casa do avô quando criança. Charles foi mandado aos nove anos à Inglaterra para estudar e por lá aprendeu diferentes esportes, mas o futebol virou paixão. Mesmo jovem, destacou-se vestindo as camisas do St. Mary’s e do Corinthian Football Club – o mesmo que posteriormente inspiraria o Corinthians paulista. De volta ao Brasil após uma década no Reino Unido, começou a ensinar a colegas da comunidade britânica a modalidade que ainda era um mistério pelo País.

Em 14 de abril de 1895, organizou na Várzea do Carmo, em São Paulo, aquele que é considerado o primeiro jogo da história do futebol brasileiro. Miller atuou por um time de funcionários da São Paulo Railway, mesma empresa em que o pai trabalhara e da qual também se tornou empregado, e venceu uma equipe de trabalhadores da Companhia de Gás por 4 a 2.

“Numa tarde fria de outono em 1895, reuni os amigos e convidei-os a disputarem uma partida de football. Aquele nome, por si só, já era novidade, visto que na época somente conheciam o críquete”, relataria o próprio Charles à revista O Cruzeiro, em 1952. “Ao chegar ao capinzal, a primeira tarefa foi enxotar os bois da Cia. Viação Paulista, que tosavam a relva pacificamente. Logo depois iniciávamos nosso jogo, que transcorreu de forma interessante, sendo que alguns dos companheiros jogaram mesmo de calças compridas, por falta de uniforme adequado.”

Foi o primeiro passo de uma novidade que tomaria conta do Brasil. Jogando pelo São Paulo Athletic Club, Charles Miller conquistaria as três primeiras edições do Campeonato Paulista, entre 1902 e 1904, sendo ainda o artilheiro da competição no primeiro e no terceiro ano deste tricampeonato. Com o passar das décadas, o esporte cresceria no País com a profissionalização, distanciando-se da origem amadora trazida por Miller.

“O vovô foi uma pessoa muito respeitada pela atitude e a educação. Lembro de pequena, ele falava sempre da parte de honestidade, do caráter e de ser verdadeiro. Ele era uma pessoa bem de finanças, mas simples de atitude. Era uma relação cerimoniosa com os netos, bem britânico”, afirma Maria Ignez. Atualmente, a principal homenagem a Charles Miller está no nome da praça em que se localiza o Pacaembu, um dos mais tradicionais estádios do Brasil e um dos palcos da Copa do Mundo de 1950. “Temos muito orgulho”, admite a neta.

Quando a bola rolar em Miami, Brasil e Escócia vão renovar a relação que vem dos primeiros passes e chutes dados no futebol nacional. Fruto de um brasileiro filho de um escocês. “Gosto de falar que o futebol brasileiro tem a cara de um brasileiro”, afirma Carlos Rudge Miller Júnior, neto do pioneiro do futebol nacional e irmão de Maria Ignez. “Ele demonstrou jogando na Inglaterra aquele jogo de cintura, a criatividade. O chute de ‘chaleira’ vem de Charles. Uma jogada diferente já. Gosto de pensar que o futebol brasileiro tem a cara de um brasileiro. Apesar da origem britânica, tem a cara do Brasil”. diz.

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